Edição de 30-07-2010
Notícias
Serviços
O meu Jornal
Pesquisa
Utilidades
O meu Jornal

Arquivo: Edição de 05-03-2010

Sociedade

Sérgio Seixas – Presidente da Maior ou Igual
“A Maior ou Igual pretende contribuir para a desocultação da violência doméstica”

Violência doméstica e igualdade de género são assuntos que andam “na boca do mundo” e que estão bem presentes na sociedade actual. Esta semana, A Voz de Chaves esteve à conversa com o presidente da Cooperativa de Solidariedade Social Maior ou Igual, Sérgio Seixas, que tem em curso dois projectos no âmbito destas temáticas.


Numa região em que os apoios às vítimas de violência doméstica são escassos, a Maior ou Igual pôs em marcha, em Janeiro, o projecto “Câmara Oculta” com vista à desocultação da violência doméstica. Com uma duração de 24 meses, esta iniciativa pretende contribuir para a desmistificação deste assunto ainda tabu no concelho de Chaves.


A Voz de Chaves: O projecto “Câmara Oculta” arrancou em Janeiro, quem é a população alvo do programa?


Sérgio Seixas: A população alvo do projecto são essencialmente as vítimas/agressores de violência doméstica. Atendendo à área geográfica em que se desenvolve o projecto, a população alvo deverá ultrapassar a totalidade dos habitantes, pois com a actividade dos debates na rádio, estes chegarão para além das fronteiras dos municípios. Por outro lado, pretendemos com este projecto identificar mais de 200 casos de violência doméstica, trabalhando com pelo menos 150 pessoas maioritariamente do sexo feminino.


VC: Que objectivos pretendem atingir com este programa?

SS: A Maior ou Igual pretende contribuir para a desocultação da violência doméstica, trabalhando directamente com as pessoas; aumentar a consciencialização para a prevenção e luta deste tipo de violência; apoiar, encaminhar e acompanhar as vítimas; informar a população local sobre esta problemática, assim como intervir junto das pessoas mobilizando-as a assumir um papel proactivo no âmbito da violência doméstica.


VC: Concorda que os meios de apoio às vítimas de violência doméstica são limitados?

SS: Claro que são! O projecto que nós estamos a desenvolver visa sobretudo dar resposta a uma carência verificada no concelho de Chaves, onde se verificou que as denúncias apresentadas por violência doméstica na GNR de Chaves são, maioritariamente, apresentadas por mulheres maiores de 25 anos, oriundas do meio rural, onde os aspectos culturais permanecem no paternalismo. Apesar do esforço das forças policiais, a verdade é que estas têm limitações de logística de apoio, bem como falta de recursos para responder a estas situações. Dado não disporem dos mesmos para fazer um adequado acompanhamento à vítima, os agentes limitam-se a fazer o seu encaminhamento para o Ministério Público.


VC: Que acções vão desenvolver para responder a situações de violência doméstica?

SS: Está prevista a abertura de um gabinete de promoção da igualdade entre mulheres e homens, que por sua vez em parceria com a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), funcionará como GAV (Gabinete de Apoio à Vitima). A equipa de profissionais da Maior ou Igual vai trabalhar com as pessoas vítimas de violência doméstica para a desocultação da mesma, fazendo o seu acompanhamento e encaminhamento para a APAV.


É claro que todo este processo é bastante complexo, acrescido de sigilo e confidencialidade das pessoas, bem como de todos os dados.


Para além do projecto “Câmara Oculta”, a Maior ou Igual pôs em prática um outro programa, este direccionado para a igualdade de género “Círculos de Reflexão – Caminhos para a Igualdade”. Com uma duração de dois anos, o projecto prova que homens e mulheres não têm de ser iguais, mas os seus direitos, responsabilidades e oportunidades não podem estar dependentes do facto de terem nascido homem ou mulher.


VC: Na sociedade actual, a igualdade de género ainda é uma utopia?

SS: Sim, sem dúvida. As pessoas têm a perfeita noção de que a desigualdade existe na nossa sociedade, contudo assumem-na como um aspecto cultural. A discriminação vai a todos níveis, começando desde logo pela linguagem, que é uma das grandes promotoras da desigualdade de género. A este título posso deixar uma pequena história que surgiu já no decorrer do projecto, a mensagem da discórdia:


“ …o meu avô morreu. A família decidiu mandar fazer uma inscrição de recordação de todos e todas. O problema era que escrever, filhos e filhas netos e netas sobrinhos e sobrinhas, primos e primas etc., acrescida da mensagem, a placa ficaria demasiado grande, por outro lado utilizar /os ou /as, os femininos ou masculinos sentiam-se como, em segundo plano na mensagem, não chegando portanto a um acordo.

A este aspecto, acrescia ainda o facto de que o custo da placa é em função do número de letras o que tornava a inscrição demasiado cara.” Poderia dar muitos mais exemplos de discriminação linguística mas podemos compreender melhor este aspecto se pensarmos que a nossa linguagem foi desenvolvida por uma sociedade patriarcal o que como é obvio colocou a mulher em segundo plano.


VC: Como é que pretendem levar a mensagem à comunidade?

SS: No âmbito deste projecto o que nós temos vindo a fazer são uma espécie de tertúlias. Reunimos um grupo de pessoas indiferenciadas onde o ponto de ordem é a reflexão sobre a temática da igualdade de género, com o desafio da descoberta de caminhos individuais e colectivos para a igualdade.


O projecto “Círculos de Reflexão” assume-se como um “mapa” de apoio a essa descoberta, porque actualmente ainda há muitas situações de discriminação entre mulheres e homens. Quase me atreveria a dizer, que de uma forma geral, a sociedade vive diariamente com o preconceito da descriminação.


Com os “Círculos de Reflexão”, as pessoas, e, porque “o caminho se faz caminhando” vão descobrindo o seu próprio caminho contribuindo para a descoberta dos caminhos para a Igualdade e assim de igual para igual construir-se-á uma sociedade mais justa.


VC: O que é que ambicionam com este “Círculos de Reflexão”?

SS: Essencialmente, o grande propósito deste projecto é informar e sensibilizar a comunidade para a igualdade de género, assim como reforçar a importância do papel da mulher e do homem. Como dizia, porque o caminho se faz caminhando, pretendemos fomentar na sociedade em geral a análise crítica, reflexão conjunta e participação activa no sentido da descoberta de caminhos para a igualdade entre homens e mulheres.

Por: Suraia Ferreira

Diga o que pensa sobre este Artigo. O seu comentário será enviado directamente para a redacção do Voz de Chaves.

GosteiConcordo
Comentários
NomeEmail
Autorizo a eventual publicação na edição em papel.

©2006 Jornal A Voz de Chaves - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital.
Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt. Email do Jornal: jornal@avozdechaves.com